PRÉ-CAMPANHA OU FEIRA DE ILUSÕES? O CÂNCER DA COMPRA DE VOTOS VOLTA A ASSOMBRAR A DEMOCRACIA EM ALAGOAS.
Mais uma eleição se aproxima. Mais uma vez, surgem os mesmos discursos, as mesmas promessas milagrosas, os mesmos abraços que desaparecem depois da apuração das urnas. A pré-campanha eleitoral em Alagoas começa a ganhar força e, junto com ela, ressurgem velhos vícios que há décadas contaminam a democracia e desacreditam a política perante a população.
Em muitas regiões, o cidadão já começa a assistir ao espetáculo previsível da demagogia eleitoral.
Políticos que passaram anos distantes das comunidades reaparecem repentinamente. Ruas esquecidas recebem visitas. Bairros abandonados viram cenário para fotografias. As redes sociais são inundadas por vídeos cuidadosamente produzidos para construir uma imagem de proximidade com o povo. Mas a grande pergunta continua ecoando: onde estavam essas figuras quando a população mais precisou?
O problema não está apenas nas promessas vazias. O problema está nas diversas formas de corrupção eleitoral que continuam rondando o processo democrático. Nem sempre a compra de votos acontece de forma explícita. Muitas vezes ela se disfarça em favores, benefícios temporários, distribuição de vantagens, uso abusivo do poder econômico, utilização indevida da máquina pública e práticas que tentam transformar a necessidade do povo em moeda eleitoral.
A pobreza, infelizmente, ainda é utilizada por muitos como ferramenta política. Em vez de combater a miséria, alguns preferem administrá-la. Em vez de criar oportunidades, mantêm a dependência. Em vez de investir em educação cidadã, apostam na desinformação. Afinal, um eleitor consciente é difícil de manipular. Já um eleitor mantido na necessidade extrema torna-se alvo fácil para aqueles que enxergam a política apenas como um negócio.
O mais revoltante é que essa realidade já não surpreende grande parte da sociedade. A indignação parece ter sido substituída pela normalização. Escândalos surgem, denúncias aparecem, investigações são abertas, mas muitos continuam agindo como se tudo fosse apenas parte do jogo político. Não é. Nunca deveria ser.
Quando um voto é comprado, não é apenas uma consciência que é negociada. É o futuro de uma cidade, de um estado e de uma geração inteira que é colocado à venda. O preço pago por um voto comprado é infinitamente maior do que qualquer valor recebido momentaneamente. Quem vende o voto por uma vantagem imediata muitas vezes compra quatro anos de abandono, descaso e sofrimento.
A democracia não morre apenas nos grandes escândalos. Ela morre lentamente quando a ética deixa de ser prioridade. Morre quando o eleitor acredita que todos os políticos são iguais. Morre quando a mentira passa a ser vista como estratégia legítima. Morre quando a população se conforma diante dos abusos e da corrupção.
A pré-campanha deveria ser um período de debate sério sobre propostas, projetos e soluções para problemas históricos. Deveria ser o momento de discutir saúde, educação, segurança pública, geração de empregos, combate à fome e desenvolvimento econômico. Mas, em muitos casos, o que se vê é uma disputa baseada em marketing, vaidades pessoais, ataques vazios e promessas impossíveis de serem cumpridas.
Enquanto isso, os problemas reais permanecem. Famílias continuam enfrentando dificuldades para acessar serviços públicos de qualidade. Jovens continuam buscando oportunidades que muitas vezes não encontram. Trabalhadores seguem lutando para sobreviver diante de desafios econômicos cada vez maiores. E o cidadão comum continua esperando que alguém finalmente coloque o interesse público acima dos interesses eleitorais.
A sociedade também precisa assumir sua responsabilidade. Não basta apontar o dedo para os políticos. É preciso exigir transparência, fiscalizar, denunciar irregularidades e acompanhar o trabalho daqueles que ocupam cargos públicos. A democracia não pode funcionar apenas durante o período eleitoral. Ela exige participação permanente.
O silêncio diante dos abusos fortalece os abusadores. A omissão diante da corrupção fortalece os corruptos. A indiferença diante da demagogia fortalece os demagogos.
Alagoas possui homens e mulheres honestos, trabalhadores e comprometidos com o futuro do estado. A grande questão é saber se a sociedade está disposta a romper definitivamente com práticas que há décadas atrasam o desenvolvimento político e social.
A pré-campanha de 2026 não pode ser lembrada como mais um capítulo de promessas vazias e denúncias de irregularidades. Precisa ser um marco de conscientização. Um momento em que o eleitor compreenda o verdadeiro valor do seu voto. Porque no fim das contas, o voto não é mercadoria. Não é favor. Não é moeda de troca.
É um instrumento de poder.
E quando o povo abre mão desse poder em troca de interesses imediatos, entrega também o direito de reclamar dos resultados que virão depois.
A democracia não precisa de salvadores da pátria. Precisa de cidadãos vigilantes, conscientes e corajosos o suficiente para dizer não à corrupção, à demagogia e a qualquer tentativa de transformar a vontade popular em negócio eleitoral. Somente assim será possível construir uma política mais digna, mais ética e verdadeiramente comprometida com o interesse coletivo.
ANTONIO FERNANDO DA SILVA (FERNANDO CPI) SITE CPINEWS. JORNALISTA.
REGISTRO PROFISSIONAL DE JORNALISTA: 0002099/2021/MTE/BRASIL. BACHAREL E POS GRADUADO EM DIREITO CESMAC.
PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO DOS JORNALISTAS INDEPENDENTES DO ESTADO DE ALAGOAS.