Há uma ferida aberta na política alagoana que atravessa décadas e insiste em sangrar a cada eleição. Não é apenas a corrupção dos poderosos. Não é apenas a compra de votos. Não é apenas o abuso do poder econômico ou o uso indevido da máquina pública. A verdadeira tragédia está na união perversa entre aqueles que exploram o povo e aqueles que, por conveniência, medo, interesse ou omissão, ajudam a manter esse sistema vivo.
De um lado, estão os "sapos cururus" da política: figuras que aparecem apenas em períodos eleitorais, distribuindo favores, promessas vazias, sorrisos ensaiados e falsas demonstrações de humildade. São especialistas em transformar a necessidade humana em moeda eleitoral.
Conhecem a pobreza, mas não para combatê-la; conhecem o sofrimento, mas apenas para utilizá-lo como instrumento de manipulação.
São profissionais da dependência social.
Precisam que o povo continue necessitado para continuarem sendo vistos como salvadores.
Precisam que a educação fracasse para que a consciência não desperte.
Precisam que a cidadania permaneça enfraquecida para que o voto continue sendo tratado como mercadoria.
Mas a culpa não repousa apenas nos ombros desses personagens.
Existe uma responsabilidade coletiva que poucos têm coragem de encarar.
Porque nenhum corrupto governa sozinho.
Nenhum comprador de votos prospera sem vendedores.
Nenhum demagogo se sustenta sem bajuladores.
Nenhum político sem caráter alcança o poder sem uma rede de cúmplices silenciosos que, muitas vezes, se encontram espalhados nas ruas, nos bairros, nas comunidades e até mesmo nas redes sociais.
É duro admitir, mas é necessário.
Existe uma cultura do "puxa-saquismo" que corrói a dignidade pública.
Pessoas que trocam a própria consciência por uma fotografia.
Que vendem sua independência por uma promessa.
Que abandonam princípios por um favor temporário.
Que transformam políticos em ídolos e esquecem que servidores públicos deveriam prestar contas ao cidadão, e não serem tratados como monarcas intocáveis.
O mais revoltante é que muitos desses mesmos eleitores que hoje aplaudem, amanhã serão os primeiros a reclamar dos hospitais lotados, das escolas abandonadas, das ruas destruídas, da violência crescente e da falta de oportunidades.
A matemática da degradação política é simples.
Quando o voto é vendido, o futuro é vendido junto.
Quando a consciência é negociada, a dignidade também é.
Quando a cidadania é colocada à venda, a corrupção deixa de ser exceção e passa a ser consequência.
O resultado aparece depois da eleição.
A comunidade continua sem saneamento.
O desemprego continua crescendo.
Os serviços públicos continuam precários.
Os problemas históricos permanecem intactos.
E aqueles que compraram votos desaparecem pelos próximos quatro anos, protegidos por mandatos conquistados não pela força das ideias, mas pelo peso do dinheiro e das estruturas de poder.
Enquanto isso, os poucos homens e mulheres honestos que tentam disputar espaço enfrentam um cenário brutal.
Competem contra máquinas eleitorais milionárias.
Contra esquemas consolidados.
Contra estruturas de influência que se alimentam da pobreza e da desesperança.
Contra uma cultura política que, muitas vezes, valoriza mais o favor pessoal do que a competência, mais a bajulação do que a honestidade, mais o interesse imediato do que o bem coletivo.
A consequência é devastadora.
A política deixa de ser instrumento de transformação e passa a ser um mercado.
O eleitor deixa de ser cidadão e passa a ser cliente.
O candidato deixa de apresentar propostas e passa a oferecer vantagens.
A democracia deixa de ser participação e passa a ser negociação.
E assim se perpetua um ciclo perverso que destrói sonhos, bloqueia oportunidades e condena gerações inteiras a repetir os mesmos erros.
Talvez a pergunta mais importante não seja quantos corruptos existem na política.
Talvez a pergunta seja:
Quantas pessoas ainda estão dispostas a dizer "não"?
Não à compra de votos.
Não à bajulação.
Não ao uso da miséria humana como ferramenta eleitoral.
Não ao culto da personalidade.
Não à mentira transformada em estratégia política.
Porque a verdadeira mudança nunca começará nos gabinetes.
Ela começará quando o cidadão olhar para o próprio voto e entender que ele vale mais do que qualquer favor, mais do que qualquer promessa e mais do que qualquer benefício temporário.
Uma sociedade só se torna verdadeiramente livre quando aprende a respeitar a si mesma.
E uma das maiores demonstrações de respeito próprio é recusar-se a ser comprada.
Alagoas não precisa de salvadores da pátria.
Não precisa de donos do povo.
Não precisa de coronéis modernos travestidos de líderes populares.
Precisa de cidadãos conscientes, vigilantes e incorruptíveis.
Porque enquanto houver quem compre votos, haverá corruptos.
Mas enquanto houver quem venda a própria consciência, haverá espaço para que os mesmos "sapos cururus" continuem cantando alto nos palanques e afundando o futuro de todos.
E nenhuma corrupção é mais dolorosa do que aquela que acontece quando um povo deixa de acreditar no valor da própria dignidade.
A eleição passa.
O dinheiro acaba.
A promessa desaparece.
Mas as consequências de um voto sem consciência permanecem por anos, cobrando um preço alto demais de toda a sociedade.
ANTONIO FERNANDO DA SILVA
(FERNANDO CPI)
SITE CPINEWS.
JORNALISTA.
REGISTRO PROFISSIONAL DE JORNALISTA: 0002099/2021/MTE/BRASIL.
PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO DOS JORNALISTAS INDEPENDENTES DO ESTADO DE ALAGOAS.
FUNDADOR E COORDENADOR GERAL ESTADUAL DO MCCE/ALAGOAS.